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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Conto "Educação Trouxe decepção" de Edson Borges é publicado na antologia 'De Viagem pela Palavra' pela Litteris Editora.

"Uma viagem com começo e meio – o fim cabe a cada leitor imaginar, fazendo uso do título, criando possibilidades, tornando real o que até então era chamado de ficção. De Viagem pela palavra, são infindáveis as possibilidades que temos de construir e reconstruir mundos e histórias, emoções de toda ordem, fatos que nos levam ao passado, presente e futuro".

Diversas, multidimensionais, polissêmicas, misteriosas, poderosas e emocionantes são a palavras, o léxico. Nesse livro elas são usadas com criatividade, emoção, ousadia, amor. A cada página uma viagem pelo mundo fascinante da palavra. Mergulhe nesse universo e tenha momentos maravilhosos de leitura.

É a segunda vez que há a participação do "geoeducador" Edson Borges Filadelfo (a primeira foi na antologia "Noel Rosa em Poesia" com a obra "Mestre Rosa"). Desta vez com o texto (conto) "Educação Trouxe Decepção", um conto engraçado que trabalha em uma estória interessante, as relações cidade-campo e o preconceito linguístico de uma forma bastante cômica e ao mesmo tempo trágica que nos leva a refletir sobre nossas ações.

O Livro custa R$ 20,00 (R$25,00 capa dura) e pode ser adquirido na loja virtual da Litteris em http://www.livrarialitteris.com.br ou clicando na imagem acima.

sábado, 27 de agosto de 2011

Um índio, a Taquaritinga e a tabatinga


(Uma curiosa história de Cabuçu)
por Fernanda Bastos da Silva Filadelfo*

Conta a lenda que, desde os primórdios da colonização brasileira, as terras que hoje comportam o bairro de Cabuçu eram povoadas pelo índios Tupinambás. Eles cultivavam mandioca e viviam às margens dos rios Cabuçu e Ipiranga, entre outros. Dizem que eles utilizavam as folhas de uma árvore milenar para colocar seus pés quando saiam de casa para visitar outras tribos pois, naquela época, a tecnologia ainda era precária e eles tinham que conviver com a tabatinga e a lama nas ruas, em função das terras baixas e alagadiças que constituíam os brejais que dominavam a morfologia da paisagem.

Os índios deram nome a vários lugares de Cabuçu, inclusive o próprio nome “Cabuçu” é de origem Tupi e significa “Abelha Grande”. Dos índios também vieram os nomes das ruas Itororó e Taquaretinga. O que muita gente não sabe é que um certo índio tupinambá nomeou a árvore milenar utilizada por várias gerações de “boça pá istica”.

Após um tempo vieram os colonizadores e a região de Cabuçu tornou-se um importante ponto de produção de cana-de-açúcar, com destaque para os engenhos Marapicú, Ipiranga, Cabuçu e Mato Grosso. O escoamento desses produtos era feito por rota fluvial ou por meios dos caminhos como o caminho do mato grosso, a antiga estrada de Queimados e Cabuçu (em frente à fazenda Cabuçu) e a rua Taquaritinga ligava o Aliança a Cabuçu.

Histórias orais contam que do alto dos montes dava para ver a poeira subindo no horizonte da Baixada, conforme passavam os tropeiros com seus muares, chegavam a fazer desenhos no ar. O caminho de Queimados, que era um pouso de parada para tropeiros, passou a ser a última parada antes dos tropeiros subirem a Serra do Mar, rumo a Minas Gerais. Dizem que quando chovia os cavalos não conseguiam transitar em meio à lama, com suas ferraduras, tendo que colocar, os tropeiros, sacos de couro nas patas dos animais para a longa caminhada.

E a cana chegou à sua fase de declínio e o café foi introduzido nas fazendas. Mas o café não vingou nas terras da Baixada e, com isso, em Cabuçu. O que ficou foram as tecnologias introduzidas para o escoamento dele, pois Cabuçu fica no caminho entre dois portos importantes, o do Rio de Janeiro e o de Itaguaí. Construíram-se em meados do séc. XIX, as ferrovias, entre elas a de Santa Cruz e Dom Pedro II (hoje chamada Central do Brasil). O que não se fala muito é que havia um ramal que liga essas duas ferrovias e que esse ramal passava em Cabuçu. (hoje chamada Linha Velha). Suas locomotivas a vapor eram abastecidas pelas caixas d’água instaladas ao longo dos trilhos, como a que fica nas margens da lagoa azul. Interessante é que essa ferrovia cortava brejos e, conforme os médicos sanitaristas, ela, ao represar as águas, provocou a disseminação de doenças provenientes das águas paradas. Com a ferrovia, porém, Cabuçu perdeu a importância política. (Marapicu tinha status político e econômico) para o pouso dos Queimados em função da ferrovia principal passar lá.

Em 1891 Nova Iguaçu se torna cidade e Cabuçu passa a constituir o distrito de Queimados. Entre o final do séc. XIX e até a 2ª Guerra Mundial, Nova Iguaçu exibiu a fama de ser a “cidade perfume” em função de seus vários laranjais para a comercialização com o exterior. Em Cabuçu não foi diferente. Em meio a brejos e laranjais, os moradores conviviam com suas ruas de terra e seus caminhos tortuosos buscando terrenos mais firmes. Para facilitar o escoamento, foi construída na dec. de 40 (1940), a Estrada de Madureira, conhecida por suas muitas curvas para fugir dos brejais de Cabuçu.

Findado o apogeu dos cítricos, “o ouro laranja”, Nova Iguaçu conheceu um novo momento, seu papel industrial, que passou a exercer por estar às margens de uma das principais rodovias do país: a Dutra. Para alocar os “novos iguaçuanos”, os migrantes que vieram trabalhar nas fábricas da cidade do Rio de Janeiro e de Nova Iguaçu, muitas chácaras laranjeiras foram retalhadas em loteamentos, entre eles o Jardim Cabuçu, cuja imobiliária era a Granja Paraíso, na década de 50.

As máquinas vinham abrindo ruas em meio às várzeas e as rodas eram esteiras que se saiam melhor nas ruas com lama.

Entre as ruas principais, lá estavam: a rua Severino Pereira da Silva, Itororó e Itaquaritinga. Até a dec. de 90 nada havia no final da rua Itaquaritinga a não ser mato e lama.

Há 12 anos, nada havia no loteamento 12 de outubro, criado recentemente. Com 6 anos de idade, eu acordei e estava no 12 há 12 anos. Em frente a minha casa: mato, à esquerda e à direita: mato, aos fundos um sítio muito antigo e a rua em frente, continuação da Itaquaritinga: terra firme e com ela, lama. Isso há doze anos.
Hoje, ao acordar em uma manhã chuvosa de verão, sinto o cheiro agradável da terra molhada e, talvez am função de uma possível descendência dos povos tupinambás que, infelizmente, já não existem mais, sinto nostalgia dessas histórias. Pouco se recordam das tradições dos nossos antepassados, porém, hoje, ao sair para o mercado, farmácia ou igreja, pratico um ritual passado de pais para os filhos, cujo tempo não sei ao certo. Um costume já tradicional dos que vivem nos arredores daquela rua Itaquaritinga, nomeada há tanto tempo. Hoje vivo na sociedade pós-moderna do séc. XXI e uso uma bolsa plástica nos pés para proteger-me da lama da rua Itaquaritinga.

Curioso esse fato. Isso prova que a memória dos povos e culturas locais é importante para conhecermos nossa história e entendermos nossas práticas culturais. O bairro Cabuçu e a rua Taquaritinga talvez não sejam conhecidos pelas empresas que criaram as bolsas plásticas para o transporte de mercadorias, mas, sem dúvida, aquele índio que nomeou a rua Taquaritinga e a folha daquela árvore fazem parte da vida das pessoas que moram nessa rua como eu e minhas gerações anteriores, moradores de Cabuçu.

Minha rua faz parte da história de minha cidade, que faz parte da história da humanidade e eu agora entro para história, escrevendo a minha história e a da minha rua. A minha rua tem história.

 
  

*Graduanda em Gestão Ambiental. E-integrante da Escola Agencia de Comunicação da SECTUR/NI dos projetos Jovem Repórter e CulturaNI . Ex-aluna do Pró-Jovem 2008 Turma A Cabuçu/NI
Texto Publicado no site
http://cabucuni.blogspot.com/2008/09/de-cabuu-para-histria.html em setembro de 2008 escolhido na gincana do Projeto Minha Rua tem História.

Contatos: organizador do site

domingo, 27 de fevereiro de 2011

As Feras Tomaram a Floresta ou "Um Índio e a Saga Amazônica"


Certo dia um índio muito corajoso recebeu um visitante. Ele era educado e generoso. Trouxe umas parafernálias esquisitas e brilhantes as quais lhe deu. Para retribuir a generosidade, resolveu então dar ele um pouco do que a terra lhe dava. Mal sabia ele que, com aquela oferta sublime, pouco a pouco iria crescer a cobiça e o visitante iria querer mais. Mas qual o problema? Dar do que a terra gerava não pareceria correto? - Queres erva? A terra me dá a erva e eu te dou a erva! - Para o índio que via naquela erva um presente de Tupã aos homens da terra nada era mais humano que oferecer.

E assim foi...

Mais tarde aquele visitante novamente apareceu, só que desta vez não estava sozinho. Trouxe uns amigos consigo. Eles também queriam as ervas, o Cacau e as lágrimas da seringueira. Lhes foi dado mais e mais. Mas eles não se contentavam. Quanto mais recebia mais queriam. Ao fim, o pobre Índio contente por ter agradado aos visitantes constantes sentiu falta dos mesmos, já não apareciam tão frequentemente. Que será?

Numa caminhada pela floresta, certa vez, o Índio da tribo dos Tuyuka ouviu barulhos estranhos vindos de grandes feras que devoravam as grandes árvores. As feras, mais bravas que onças, comiam tudo que viam pela frente e o pobre índio, ainda espantado, tentou pedir ajuda aos guerreiros de sua tribo. Alguns índios morreram ao tentar enfrentar as feras que só não atacavam os amigos daquele visitante que esteve na tribo algumas vezes.

Algum tempo depois o índio, curioso e corajoso, voltou ao local onde teria visto as feras. No lugar da Mata haviam plantas igualzinhas umas das outras, como suas plantações de mandioca, porém, que sumiam no horizonte deixando o rio que o índio gostava de visitar mais longe, e vez por outra ouvia o rosnar de feras em meio a aquelas plantações. Conversando com um índio amigo de outra tribo, ele ouviu dizer que as feras estavam escavando a terra e não havia nem mata nem planta alguma onde ele gostava de ir uma vez ao ano mais pro lado onde o sol dorme. Se aqui as feras comem as arvores e cuidam das plantas, lá só havia destruição e estavam levando a terra.

Muito tempo se passou e cada dia mais o índio tinha que temer andar na floresta, pois as feras estavam por todos os lados, até mesmo cruzavam o céu com seu ronco agressivo. Desejando visitar o grande rio que seu pai lhe havia levado em sua infância o, então bravo guerreiro, aventurou-se na selva em busca do sonho perdido. Será que as feras levaram as águas do grande rio?

Chegando ao local, ao desbravar as terras que antes exuberavam as matas mais antigas da região, o índio derramou-se em lágrimas. Uma fera havia segurado as águas do rio, talvez na tentativa de levá-las embora, e o Iguassú, que não se entregava, inundou a mata matando as árvores, animais e uma pequena tribo que ali habitava a muito e muito tempo. O Índio não pensou duas vezes. Triste com todos os problemas que haviam surgido desde que avistou as feras pela primeira vez, ele se jogou nas águas desesperadas do grande rio até que atingiu as mãos da grande fera e morreu.

Seu sangue foi espalhado pelo rio, tornando suas águas avermelhadas como suas pinturas. Desde aquele dia o grande rio - hoje chamado - Solimões - luta para não ver perdidos os rastros do sangue do guerreiro Tuyuka quando se encontra com o Rio Negro, fazendo do encontro de suas águas e o nascimento do Amazônas uma maravilhosa paisagem, guadando consigo segredos e estórias fascinantes como a do índio que amava sua terra.


Edson Borges Vicente (Filadelfo)2007

http://www.geoeducador.blogspot.com/
http://recantodasletras.uol.com.br/contos/2124396

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Mulinha Tecnológica



por Edson Borges Vicente*
Era uma vez uma mulinha simpática e trabalhadora.
Todos os dias seu dono lhe colocava para trabalhar pesado. Carregava pedrinhas preciosas em sua carroça. Pedrinhas de direrentes séries de tamanhos, cores e formas. Cada viagem uma leva pesada de pedrinhas - e nenhuma podia cair. Para tal trabalho, a mulinha havia sido adestrada por quatro anos e passado por um rigoroso exame que a escolheu entre muitas outras. Havia se saido bem por que já treinava bastante antes de terminar o adestramento.
Ela até que reclamava do esforço demasiado, porém não pestanejava em colaborar. De tempos em tempos ela ficava de greve e empacava. Certa vez a mulinha parecia estar ficando mais fraca devido à má alimentação que recebia daquele ser humano que a governava. Eram 730 quilos de capím por mês - quantidade insuficiente para mantê-la por todo o longo mês de trabalho.
Por mais que a mulinha empacasse no meio do caminho seu semblante era bem tranquilo e ela seguia todas as orientações do seu dono. Quando ele puxava a corda direita do arreio ela sabia que tinha que ir para a direita e quando ele puxava para a esquerda, ia a simpática mulinha para a esquerda. Tudo isso com o cuidado para não deixar cair ou espalhar as pedrinhas tão valiosas que costumava carregar, cada qual de uma série diferente de tamanhos cores e formasm porém, todas muito valiosas.
Tudo ocorria assim até que o seu dono não mais passou a guiar a carroça que a mulinha puxava...
Para total espanto da mulinha trocaram sua carroça por uma carroça tecnológica, cheia de parafernalhas informatizadas. Aquela mulinha ficou desesperada. Agora já não havia mais arreio. Umas luzes piscavam de um lado e de outro a indicando as direções que ela deveria seguir. Sons indicavam quando parar e voltar. Ela não compreendia aquilo já que seu dono simplesmente havia sumido. No lugar dele somente botões e mais botões.
No primeiro dia a mulinha acabou se perdendo. Não sabia como puxar sua carroça tecnológica. Rodou, rodou o dia todo até gastar a energia da porção diária de capim. Cansada e fraca resolveu voltar para casa para comer - caminho ela sabia de olhos. Certa de que seu trabalho era muito importante para seu dono e para aquelas pedrinha preciosas, esperava receber um porção a mais de capim para condizer com o trabalho a mais que deveria fazer tão solitária.
Chegando em casa ela teve outra grande decepção: a porção de campim era a mesma que recebia nos tempos da carroça com arreio: 730 quilos de capim po mês. Mudou a carroça -agora era carroça tecnológica- mas nada mudou quanto ao capim. Já esgotada ela ainda teve que passar a noite com fome até receber a porção do dia seguinte.


Um Grande abraço a todos os Professores do Estado do Rio de Janeiro!




* Geografo Bacharel e Licenciado pela  Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor da rede estadual do Rio de Janeiro. Professor e coordenador do Pré-vestibular para Negros e Carentes - PVNC Cabuçu

sábado, 15 de maio de 2010

EDUCAÇÃO TROUXE DECEPÇÃO

                                                    Por Edson Borges Filadelfo
CLASSIFICADO NO CONCURSO DE POESIAS "DE VIAGEM PELA PALAVRA" DA LITTERIS EDITORA" 2012

Disponível também em whttp://recantodasletras.uol.com.br/contos/1379447

 

EDUCAÇÃO TROUXE DECEPÇÃO


Edson Borges – Geoeducador


 


Sem dúvida, João era simpático e trabalhador. Porém era homem matuto, da roça, e aonde chegava tudo ia bem até ele abrir a boca, pois falava mal. Já sua mulher, Ritinha, menina estudada, criada na cidade, tinha vergonha de João. Por isso, só conversavam a sós.

Numa dessas conversas, João dizia:

-   Mai Ritinha, pruquê oçê veio imbora da feista dispois qui eu chegei perto di oçê e disse: “Ritinha, mai qui cabrita mais fromosa, cê tá rebentando nessa feista”. E, até fui cavalêro cum suas amigas; chamei inté elas pra vim na nossa fazenda i bebê leite tirado na hora da nossa Gertrudes. E óia que num é quarqué um qui tem esse privilégiu não!

Ritinha gostava de João mas ficava sem graça diante de suas amigas que muito riam dela. Então disse a João:

-   Olha amor, você sabe que eu te amo, não sabe?
-   Mai é craro qui sei!
-   Então promete que me faz uma coisa se eu pedir?
-   Ara, prometo minha frô.
-   E não perguntará por que?
-   Tá tudo bem, eu faço o qui oçê pidi!
-   Então é o seguinte: não fale comigo na presença de minhas amigas, nem vá à festas comigo como um Jeca. É por amor está bem? Einh  meu cabritinho?
-   Sô seu bodi véio minha cabrita!

Haveria uma grande festa na cidade e Ritinha estava doida para ir. Iria acontecer um tal de Blackout e, por alguns minutos, o salão ficaria às escuras. Como João não tinha roupas adequadas para aquele tipo de festa, Ritinha conseguiu convencê-lo a ficar em casa.

Faltando uma semana para a festa, João pensou consigo mesmo: “eu vô inté a casa du meu cumpadi da cidade. Vô pidi ele pra imprestá umas rôpa i mi insiná uma frase bunita preu dizê pra Ritinha. Ela vai dorá. Vô proveita esse tal di blecauti pra falá prela. Ela num vai nem creditá”.

E, assim foi. Ritinha nem sabia o que João lhe preparava. E João foi à cidade sem que ela chegasse da casa de sua mãe que era em outra cidade.

Quando chegou o dia da festa Ritinha se produziu toda, ficou linda e com um beijo despediu-se de João dizendo:

-   Meu cabritinho, não se preocupe pois logo estarei de volta, esta bem?
-   Sou seu bodi véio minha cabrita! E, podi í tranqüila qui eu vô ficá bem, só num vorta muito tardi qui eu já tô inté cum saudadi.
-   Tudo bem, meu cabritinho!
-   Sô seu bodi véio minha cabrita!

Logo assim que Ritinha saiu para a festa, João se arrumou. Passou gel no cabelo, o qual seu amigo lhe havia dado, vestiu a roupa emprestada e partiu também.

Ritinha já estava embalada na festa quando João chegou. Ela não o viu e em poucos minutos chegou a hora do esperado Blackout. Tudo ficou na penumbra. Nesse momento João chegou para Ritinha e falou:

-   Minha vontade, nesse momento, é de tomá-la em meus braços como jamais fiz antes. E seria a melhor noite de amor que já tivemos. O que acha minha princesa?

Então Ritinha respondeu:
-   Mas desta vez tem de ser rápido pois o Jeca do meu marido está em casa me esperando e pediu para que eu voltasse cedo!
                                        FIM!

(Esse texto foi escrito em 28/04/2002 e revisado e alterado em 29/05/2012).


¨  Edson Borges Filadelfo (Geoeducador) Bacharel e Licenciado em Geografia pela UERJ,  Professor da Rede Estadual do RJ e Professor da Rede Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, Graduando em História pela UNIRIO. Contatos: www.geoeducador.blogspot.com
Geoeducador
Publicado no Recanto das Letras em 11/01/2009
Código do texto: T1379447

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Carta do Sevinho

Por Edson Borges Vicente


Severino era um menino franzino e empalidecido. Ainda assim seus olhos, embaçados pelo sol escaldante de verão na Caatinga, brilhavam como raras gotas de orvalho sob os mandacarus. Naquele dia anterior à primeira ida para a escola, fizera tudo o quanto podia para quebrar a rotina de sua pacata vida naquele pacato lugarejo chamado Sertão Fundo. Deixara de usar sua melhor muda de roupas na missa dominical para apinhar-se na única sala de aulas da região, recém contemplada com um programa de alfabetização rural. Era seu primeiro dia de aula em seus nove anos de vida severina.
O maior sonho daquele garoto era escrever uma carta para seu pai que havia deixado a família há cinco anos para tentar a vida no Rio de Janeiro. Mesmo em remotos flashes, sua memória guardava a imagem e a promessa de que veria mudar os rumos de sua vida quando, no retorno dele com suficiente dinheiro ajuntado, fartos dias cessariam a fome de toda sua família.
Sevinho, como era chamado pelos seus colegas, sabia que o que a professora vinda da cidade trazia era muito mais do que rabiscos em papel e quadro de giz, era a oportunidade para ele abraçar o mundo e ser abraçado. Sabia também que o fato de seu pai ser analfabeto dificultaria muito conseguir um bom trabalho e juntar o dinheiro sonhado. Não fossem as leitoras e redatoras de cartas apostos na Central do Brasil, sequer receberia as correspondências enviadas desde que ele partira e não fosse o dono da mercearia, único alfabetizado do lugarejo, nem mesmo as tais cartas seriam lidas.
 Mas seu sonho estava se realizando, estava agora em uma escola. Toda a precariedade do lugar não abatia o menino que atribuía grande valor ao aprendizado e, com seu impoluto pensamento, não enxergava as inúmeras imperfeições que ali existiam. Olhos e atenção voltados para aquela jovem que dedicara sua vida a ensinar, Sevinho nem sentiu mais fome, nem sede e, durante as quatro primeiras horas de aula de sua vida, sentiu-se gente. Voltou pra casa com os mesmos olhos embaçados de outrora, mas com o resquício de um brilho diferente do anterior, já não raro como o orvalho, mas cotidiano como a luz implacável das proximidades do equador, intensa e com força contínua.
(Texto concorrente no concurso literário Brasil de A a Z da Litteris Editora, 2013).

sábado, 17 de outubro de 2009

Professor: ser ou não ser


Por Edson Borges Vicente em 15 de outubro e 2009


Era manhã fria embora o inverno estivesse arrumando as malas. Estava toda a turma assentada em filas indianas, como era de costume, já que a densidade demográfica era de quase uma criança por metro quadrado naquela sala de aula de colégio público da periférica cidade metropolitana de Nova Iguaçu. A escola ficava no bairro periurbano de Cabuçu, onde a proposta construtivista já tinha chegado aos ouvidos dos professores, mas a disposição em círculo da era fisicamente inviável.
A quinta série tinha novo nome: sexto ano do Ensino Fundamental e também novo habitante: Tiago Fernandes, garoto franzino cujo sobrenome espanhol havia sido herdado em tempos em que José Schazneger poderia ser considerado genuinamente brasileiro em uma família pobre da Baixada Fluminense.
Entre um mapa e outro o professor de geografia falava da importância do estudo na vida das pessoas e com veemência associava a escolaridade às oportunidades de bom emprego e dignidade de vida. Certo momento, enquanto o mestre falava da relação dos meios de comunicação com o conhecimento dos lugares, como filmes e documentários televisivos e dos textos e imagens de jornais e revistas, Tiago interrompeu:
- Professor, o senhor viu um monte de professores apanhando na televisão?
- Quando você viu isso? - Indagou o professor.
- No jornal. Passou uns policiais batendo nos professores lá na cidade – afirmou o menino.
Para evitar a mudança de rumo da aula o professor desconversou:
– Eles já pediram desculpas.
- Pediram nada – retrucou o garoto –, o cara do jornal disse que era por que os professores ganham muito pouco pra dar aula. Menos que prefeito, vereador e presidente – completou.
- Isso é verdade - respondeu o docente. – Mas isso não quer dizer que ele trabalhe menos. O professor é um profissional de suma importância para a sociedade. Todos, antes de serem ‘alguém na vida’, passaram primeiro pelo professor: presidente, prefeito, vereador e também os médicos, engenheiros e advogados – explicou.
- Eu também ouvi isso na televisão. Tem professor pra criança, pra adolescente e pra adulto, né! Até pro juiz tem professor. Deve ter que estudar muito pra ser professor, não é professor? – perguntou Tiago.
- É claro – não exitou o educador –, você estuda nove anos no Ensino Fundamental, três no Ensino médio e mais um no Curso Normal para dar aulas até a quarta série / quinto ano. Para dar aulas do sexto ano, como a turma de vocês, e para o Ensino Médio / Segundo Grau, tem que cursar uma faculdade e estudar mais quatro anos.
- Nossa! - espantou-se o jovem – Isso tudo? E pra dar aulas pros médicos e pro juiz? Questionou o aluno.
- Bom, dependendo da faculdade (que é onde os médicos estudam), o professor tem que estudar mais um ou dois anos na especialização, dois anos no mestrado e mais quatro no doutorado.
- Chega! – implorou o moleque – Mais pra dar aulas pra quinta série só precisa dos quatro anos na faculdade e pronto, certo? Indagou-lhe.
- Não necessariamente. Muitos professores estudam mais que isso. Na verdade, o professor nunca pode parar de estudar. Ele precisa sempre se atualizar – complementou o mestre.
Um silêncio se fez na sala...
Após um tempo e alguns cochichos ecoando entre as paredes da sala 10, Mariana – menina espevitada e falante – se intrometeu no papo que já rendia dez minutos da aula.
- Eu também soube que os professores apanharam. Mas soube no rádio. Eu gosto de rádio pra ouvir música, sabe! - continuou... – na verdade eu gosto mesmo é de pagode, mas minha mãe ouve musica internacional, ‘da antiga’, e colocou na JB que de vez enquanto tem jornal e ai...
- Já chega! - gritou Fernanda – a encrenqueira da sala. O que não tinha de corpo tinha de marra – eu vi uma foto no jornal. Meu pai não compra jornal sempre, mas ele pára na banca da praça pra ler as capas penduradas. Quando eu estou com ele é ‘um saco’, tenho que esperar. Eu vi em uns três jornais diferentes – concluiu.
Percebendo a ânsia dos pequenos o professor tentou trazer a discussão para o âmbito do tema estudado e interrompeu a discussão dizendo:
- Estão vendo como é necessário estudar? Ler jornal, assistir TV e ouvir rádio são formas de comunicação e a Geografia também utiliza-as nos seus estudos.
Gilson, um moleque que só sentava no fundo da sala e vivia a comer biscoitos e mastigar com a boca aberta comentou, num tom sarcástico:
- Estudar pra ser alguém na vida, blá-blá-blá... Todo mundo já sabe dessa história. Até o salário do professor saiu no jornal: seisentos reais. E, no final, ele ainda tem que pagar a passagem do bolso dele - enfatizou.
Um espanto sucedido de mais um silêncio na classe.
- Meu irmão não estudou e ganha mais que isso – afirmou Gilson - Ele trabalha de camelô e nem paga passagem. Os motoristas deixam ele entrar pela porta de trás. Quando ele vende picolé na praia ele ganha até gorjeta dos turistas – acrescentou o pequeno.
Sem saber o que fazer o professor tentou persuadi-lo informando que esse salário baixo é pago pelo estado, mas que há municípios que pagam bem e dão a passagem, mas a euforia era geral.
- E ainda apanha da polícia – lembrou Tiago.
- Minha professora da quarta série trabalha pra prefeitura de Nilópolis, onde eu morava, e também reclama do salário – acrescentou Fernanda.
- Eu ouvi na rádio que o presidente quase não estudou e o dono do salão de barbeiro perto da casa da minha tia virou vereador. – complementou Mariana.
Antes que o mestre pudesse interferir, Tiago perguntou:
- Alguém aqui tem coragem de estudar a vida toda pra ser professor?
Bate o sinal e, na correria, esvai-se pelo ar aquela conversa.