sábado, 6 de março de 2010

Resenha do texto: A Maquinaria Escolar de Julia Varela e Fernando Alvarez -Uria

SÉRIE PENSANDO - CIÊNCIA - RESENHAS.
15/11/2007
Aimê Miranda Lima*
Edson Borges Vicente* ¹





O texto aborda as condições sociais e históricas que permitiram o estabelecimento da escola como instituição “universal e eterna”. Para isso analisa o surgimento de instâncias fundamentais que favoreceram e legitimaram a escola nacional. Entre estas estâncias está a definição de um estatuto da infância.

Definição do estatuto da infância
Como primeira condição os autores apontam a definição do estatuto da infância. Para que pudessem freqüentar a escola que se tornou posteriormente obrigatória era necessário proibir o trabalho nos primeiros anos e legitimar a necessidade da educação pré-trabalho. A infância, como hoje a conhecemos, foi construída e forjada socialmente inicialmente pelos moralistas e homens da Igreja. Educar na infância e aí inclui o ensino religioso, foi o mecanismo desenvolvido pela a Igreja para a conservação de seus padrões morais e autoridade eclesiástica, em uma época em que estes eram freqüentemente questionados. Durante as intensas disputas envolvendo católicos e protestantes, nada poderia ser mais “natural” do que estabelecer seus dogmas nos indivíduos de tenra idade, a fim de proteger seus domínios. Esta educação tornava-se ainda mais fundamental aos príncipes e herdeiros que constituiriam a futura liderança das nações, que no contexto dos Estados absolutos determinaria a religião de todo o território. Já os filhos dos pobres, da população de classes econômicas inferiores, seriam alvo da caridade cristã, sendo instruídos e doutrinados nas práticas virtuosas, a fim de se tornarem bons cristãos e por conseqüência bons trabalhadores, submissos a seus mestres.
 
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Neste momento, a naturalização da infância será acompanhada por uma naturalização das classes sociais. Ambas se forjam juntas na compreensão de que diferentes qualidades de natureza exigem diferentes tipos de educação e são concebidos diferentes tipos de infância a partir das classes sociais.
Os infantes deveriam ser moldados por seus mestres para que suas almas e corpos fossem redimidos da sua natureza inclinada para o mal. A maleabilidade, a fragilidade, a rudeza e a fraqueza de juízo concebidas então como naturais nesta etapa da vida tornar-se-iam as características definitivas da meninice, legitimando a necessidade da educação, disciplina e formação. Esta, no entanto não será conceito formado instantaneamente, um longo e complexo processo se desencadeará no sentido de naturalizar e definir as características “inerentes” a cada etapa da juventude. Três influências serão definitivas neste processo: as instituições educativas, a família cristã e as práticas de recristianização. Por isso também, a reestruturação da família cristã de acordo com os “papéis” definidos pelos eclesiásticos será fundamental. A obediência dos filhos em troca do cuidado e vigilância dos pais, a naturalização do amor entre ambos, entre outras atribuições familiares serão enobrecidos pela Igreja e pelos padrões morais vigentes. Tais orientações praticadas e fundamentas ao longo dos anos resultará no século XVIII em uma “infância inocente razoável no que se refere às classes distinguidas”.

Em séculos anteriores, segundo Philippe Áries,a criança era um indivíduo que integrava a comunidade de forma participativa. Através da análise de um amplo material histórico, ele comprova que durante a Idade Média Infância e adolescência constituíam-se em uma mesma etapa. Apenas a partir do século XVIII serão diferenciadas as etapas da juventude o que também funcionará como um instrumento de dominação social


Destruição de outras formas de socialização         

            A instituição escola, para assentar-se enquanto local legítimo de transmissão de conhecimentos e saberes, precisou enfrentar outras formas de socialização e aprendizagem existentes. Nesse processo, houve uma gradativa desvalorização das outras “diferentes e relativamente autônomas com relação ao poder político” (p. 83). A aprendizagem e a formação não caminharão mais juntas a partir do deslocamento do processo de aprendizagem do trabalho e do cotidiano para a escola.
            A oposição às instituições educativas medievais, pressuposto da escola jesuítica fez com a primeira fosse perdendo seu caráter grêmial e passasse a estar subjugada cada vez mais a um controle moral e uma abordagem individualizante. A escola passa a ensinar coisas desconectadas do cotidiano, “inúteis”.
            Um fator importantíssimo nessa análise é que há uma perda de poderes dos estudantes, encarados agora como meros colegiais de acordo com Dunkeim citado pelos autores, em função da emergência de novas funções cabíveis ao professor, como coordenar e aplicar métodos pedagógicos, normalizar os colegiais e deter pra si o conhecimento que deveria ser passado aos mesmos. Os estudantes vêem-se diante do monopólio do conhecimento por parte do professor, do qual exclusivamente emana. Saber esse que só é legitimo por estar sistematizado e fundamentado.
            O poder proveniente do conhecimento enquanto instrução – e esse só a elite teria acesso -, faz emergir uma distinção de classes legitimado pelo poder do conhecimento, ou seja, a escola serviria pra distinguir e legitimar as classes. Ao mesmo tempo, o conhecimento escolar cria valores, condutas e normas que servirão para avaliar o cidadão. Os valores ensinados na escola constituirão do “bem” e a ignorância da sabedoria popular, do senso comum, das “superstições” se configuraria enquanto “mal”.
           

Institucionalização propriamente dita da escola: a imposição da obrigatoriedade escolar e o controle social

            Percebemos assim, claramente, a intenção de adequar as classes populares à ordem estabelecida. A escola seria uma instituição encarregada de controlar a massa, “adestrando-a”, moldando-a aos interesses da burguesia em ascendência. A configuração da classe operária (no contexto das revoluções industriais) foi mediada pela implementação de medidas de controle, no sentido de formá-lo um bom operário, “amansa-lo”, acalma-lo, em prol da ordem para o progresso. O sentido de família é introduzido concomitantemente à obrigatoriedade escolar.
            Os sentimentos de moralidade, precaução das necessidades (economia), terão o acompanhamento do surgimento de instituições capitalistas como as caixas econômicas. A transformação dos sujeitos a começar pelos meninos (futuros operários) será interessante do ponto de vista social e econômico para a classe dominante. Isso tudo permeado pela autoridade do professor que deve fazer obediente e “civilizado” o escolar. Cabe ao professor educar os meninos pobres, não para ter autonomia e autoridade mas sim, obedecer e submeter-se. A escola como prevenção das revoltas e contravenções. Parece ter sentido nesse contexto, a frase: “é melhor educar meninos que punir homens” (observação nossa).
            A obrigatoriedade escolar, o “seqüestro escolar da infância”(p. 90), manipula, molda ideologicamente as classes populares ao mesmo tempo em que hierarquiza as classes a medida em que seleciona o tipo, a qualidade  e a quantidade de conhecimento o qual é permitido adquirir de acordo com a posição financeira (de classe social) dos escolares. Como já dito, aos filhos de elite, o poder, aos filhos da massa, a obediência.
            O professor - armado pela instituição do estatuto da infância - aos urbanos primeiramente e, aos camponeses num segundo momento  - devido ao caráter urbano  inicial escola -, inculcará as noções particulares da idade infantil. Ao mesmo tempo em que descartará todas as formas de socialização, higienização e familiarização dos meninos pobres. A escola era ordenada, regulamentada, impunha aos escolares os preceitos burgueses. O valor financeiro do tempo, a os modos educados dos “cidadãos”, o “como e quando falar”, o “como se alocar na sala de aula”, “como se locomover ordenadamente”, a obediência e respeito ao professor enquanto “ser superior”.
            O poder da escola era para estar nas mãos do Estado. O professor, nesse momento, deveria ser então, um representante deste, um funcionário público. Seu conhecimento deveria ser adquirido em uma instituição própria para esse fim: a escola normal. Ele deveria ter, além da representatividade estatal enquanto servidor público, “a posse da ciência pedagógica” e esta, aliava-se cada vez mais com a psicologia, dotando-a de um a “dupla cientificidade” (p. 91).
            O professor deveria, considerando sua autoridade e papel no sistema, romper com os laços de amizade e promover o individualismo e a concorrência em sala de aula. A distinção dos bons e dos maus alunos dar-se-ia pela comparação entre suas condutas, desempenhos numa abordagem comportamentalista da educação. À sociedade burguesa cartesiana, onde a soma dos indivíduos é considerada a sua totalidade, introduzir-se-iam os escolares moldados às suas necessidades. A ciência pedagógica teria, nos subsídios que a psicologia dava, a possibilidade de aumento do domínio das técnicas da emergência de novas formas de imposição da submissão do escolar, conseguia-se assim “de forma definitiva a conquista da escola”(p.92).
            A escola, ao impor as sua formas de socialização e aprendizagem, produziu os esteriótipos necessários à desvalorização do conhecimento e cultura populares. Uma forma de preparo para o trabalho. Se antes o trabalho era necessário como uma forma de aprendizagem, agora a aprendizagem é necessária para a realização do trabalho.
            A escola burguesa, mo intuito de “civilizar” a massa, promove uma dependência desta mesma à escola. Uma forma de violência mais do que simbólica, na qual as possibilidades de dignidade são controladas pelo sistema. Hoje, todos tem consciência de que a ascensão social não se faz sem o acesso à educação (escolar). O que muitos não tem consciência é que esse pressuposto, além de construído socialmente, é perverso à medida que o direito à todos à educação é acompanhado (em sua concepção original) Ao direito à todos à submissão. Segundo Marx, a submissão das massas é relacionada à falta de consciência de sua exploração. Cabe a nós, educadores, a luta pela preservação da educação enquanto pública e a atuação no sentido de buscar aos “educandos”, a autonomia e consciência crítica das relações sociais as quais estamos inseridos. Se hoje podemos perceber esses mecanismos, podemos caminhar no sentido de substituição por uma nova ordem. Que seja mais justa, democrática e consciente, na busca pelo pleno acesso ao conhecimento, considerando-o também o conhecimento tácito da cultura popular.

Referências Bibliográficas

VARELA, Julia & ALVAREZ-URIA, Fernando. A Maquinaria Escolar. In: Teoria e educação, 6, 1992. (p. 69 – 97)


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* Graduados em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
1 - Professor da Rede Estadual de Educação do RJ, professor e coordenador do Pré-vestibular para Negros e Carentes Núcleo Cabuçu - PVNC Cabuçu

2 comentários:

Anisia Nascimento disse...

Gostaria de seguir o seu. Coloca o gadgt "seguidores".
Obrigada

Laís Nunes disse...

Ótimo texto! Me ajudou muito a compreender melhor o texto e estudá-lo. Obrigada!